Sequência de posts com descrições das cervejas estilo livre participantes do Concurso ACervA Mineira.

Cerveja e texto de autoria de: Paulo Patrus e Gabriela Montandon; Cervejaria Grimor

Imagem: Márcio Rossi

Nicotiana – Cerveja Mineira de Tabaco

Ingredientes típicos: Fumo de corda (fumo de rolo)
Texto de apresentação – relação com dos ingredientes com a história, cultura e culinária do Estado de Minas Gerais:

Entre a década de 1690 e meados do século XVIII, a mineração transformou uma região pouco povoada do interior do Brasil na zona mais populosa da América Portuguesa. Na falta de evidências de que o consumo per capita de tabaco em Minas Gerais fosse inferior à média brasileira, esta capitania passou a responder pela maior parte do consumo da especiaria do Brasil.

O tabaco, nome comum às plantas do género Nicotiana em particular a N. tabacum, são originárias dos Andes e acompanharam as migrações dos índios por toda a América Central, até chegar ao território brasileiro. Das crenças e rituais indígenas, o tabaco se tornou a mais importante cultura agrícola não-alimentícia do planeta. A disseminação do consumo de produtos derivados do tabaco, em todas as suas formas (rapé, cigarros de palha, charutos, cigarrilhas, fumo de rolo, etc.), remonta a história das Minas Gerais.

Embora a planta crescesse abundantemente em muitas regiões do Brasil, foi em Minas Gerais que ela se eternizou. O fato é que a imagem dos mineiros picando fumo e enrolando palha, nas soleiras das portas e nos bancos das praças, tornou-se um estereótipo. O hábito de fumar e mascar fumo sempre foram disseminados nas terras mineiras. Quem tem raízes no interior de Minas, conhece esta realidade ainda muito atual. As obras da literatura regional, principalmente os textos de cunho memorialístico, fornecem evidências fortes de que o tabaco permeou e permeia a cultura mineira.

Cada região de cultivo produz diferentes tipos de tabaco, uma vez que o microclima e a microflora local contribuem fortemente com características sensoriais específicas de cada especialidade de fumo. Estas características são conferidas ao tabaco em virtude dos processos de secagem e fermentação das folhas, que refinam e dão características peculiares ao produto.
Diante disso, a utilização desta especiaria na produção de cervejas, além das características organolépticas típicas das variedades do fumo, a especiaria também pode contribuir com o inóculo de cepas de leveduras e bactérias específicas da flora microbiológica local. Isso implica sugerir também a utilização do fumo em segundas fermentações ou fermentações espontâneas e, dessa maneira, aumentar a variedade de estilos de cervejas que utilizam o fumo, além de agregar certo grau de terroir mineiro às cervejas.

Por fim, a criação do estilo picante de Cerveja Mineira de Tabaco pode ter extremo impacto por sua imensa diversidade. Além da utilização de inúmeras variedades de tabaco, que são facilmente encontrados em mercados populares brasileiros e lojas especializadas, as cervejas produzidas apresentarão diferentes características organolépticas oriundas da especiaria que são essencialmente particulares à região das Minas Gerais e do Brasil.

Descrição do estilo:
Aroma: Sobressaem as características dos maltes tostados, com aromas intensos de caramelo e toffe. Presença de aromas oriundos da fermentação como banana, uva passa, fenólico (cravo) também são presentes. Os aromas de lúpulos nobres são quase imperceptíveis. Aromas similares à erva seca, palha, noz moscada e pimenta poderão estar presentes, mas sua intensidade irá variar com a especialidade de tabaco utilizada.

Aparência: Coloração de castanho claro a cobre escuro. A cor varia com a proporção de maltes tostados e torrefados e também com a especialidade de tabaco utilizada. Certos tabacos conferem tons amarronzados, muitas vezes negros, à cerveja. A turbidez caracteriza o estilo, uma vez que as partículas de fumo ficam em suspensão. Aliada a refermentação na garrafa, a Cerveja Mineira de Tabaco terá turbidez característica. Pode estar presente sedimentos no fundo do copo. O creme é branco, pouco denso e de média persistência.

Sabor: Nas primeiras impressões, destacam-se os sabores adocicados do malte, lembrando caramelos e toffe. Moderada sensação de picância e sabores apimentados e condimentados, juntas às impressões quentes e alcoólicas. Término seco, leve acidez e adstringência, suavemente amadeirado, levemente herbal com e suaves notas de fumaça e cigarro.

Sensação na boca: Corpo leve a médio. Picância e leve adstringência típica do estilo. Sensação de calor na boca e leve acidez do fumo. Paladar seco, picante, condimentado e alcoólico.

Impressão geral: Uma cerveja marcante com características condimentadas, apimentadas e quentes.

Comentários: Acidez leve a moderada é aceita neste estilo. O fumo de corda pode ser acrescentado na fervura, preferencialmente ao final do processo (similar ao Late Hopping), ou em alguns casos utilizado em segundas fermentações ou fermentações “espontâneas”.

Ingredientes: Malte Pilsen, Malte CaraAroma, Carared, Lúpulo Fuggles e Fumo de corda.

Características vitais:
IBUs: 10-20
SRM: 7 -18
OG: 1.045 – 1.065
FG: 1.010 – 1.020
ABV: 4,5 – 7,0